SACRAMENTOS: EFETUAÇÃO DO QUE SIGNIFICAM









                                                                                  Dom Dulcênio Fontes de Matos
Bispo Diocesano de Palmeira dos Índios

           Quando da Solenidade da Imaculada Conceição da Bem-Aventurada Virgem Maria, em oito de dezembro último, tivemos a grata satisfação de lançar o Diretório para os Sacramentos, em vigor na nossa Igreja Particular de Palmeira dos Índios.Este Diretório serve para, à sua luz, orientar pastores e fiéis na prática de uma vida sacramentalmente ativa no seio da Igreja, Esposa de Cristo.
Por Sacramento, não o entendamos meramente como um gesto ritual que esteja fora da experiência cristã ou humana em que vive a pessoa de fé, mas um desabrochar dessas mesmas experiências, enriquecendo-as com a recepção da Graça de Deus, do Seu dom gratuito de amor que nos transforma, que nos une como filhos do mesmo Pai e como irmãos da mesma família.O termo latino ‘sacramentum’ equivale ao grego ‘mysterion’, que, tanto na visão bíblica quanto na antiga literatura cristã, especialmente a oriental, não indica propriamente uma verdade desconhecida (como ocorre predominante e erroneamente na linguagem moderna). Refere-se ao projeto de salvação, oculto em Deus na eternidade, prometido na sucessão dos séculos, e que é plenamente manifestado em Cristo. O conteúdo do mistério, portanto, é o próprio Cristo, cumprimento e ápice do plano divino. Assim, “os sacramentos são sinais sensíveis e eficazes da Graça, instituídos por Cristo e confiados à Igreja, por meio dos quais nos é dispensada a vida divina” (CIC 1131).
É pela ação do Espírito Santo que o Mistério Pascal de Cristo transforma a vida dos cristãos e da comunidade eclesial, jamais anulando na Igreja ou nos fiéis a sua condição humana. Antes, como frutos do peito aberto de Cristo em Sua cruz salvadora, os sacramentos purificam e integram toda a riqueza das palavras, dos sinais e dos símbolos do mundo e da história, fazendo acontecer, em todos os tempos e lugares, a salvação. Por tal motivo, serem os sacramentos necessários à salvação do homem que crê.
            Interessante é notar que toda a ação sacramental da Igreja realiza-se no interior de uma liturgia, de uma ação sagrada. Toda ação da Igreja é litúrgica, pois é através da liturgia que Deus, usando a Igreja como canal, serve o seu povo. Toda ação litúrgica é comunicação dos dons de Deus para com seu povo, e disto a Igreja é mediadora, é ponte; e não só ponte, mas corpo: é o Corpo de Cristo (1Cor 12,12ss), presidida por Ele, sua Cabeça, no poder do Espírito derramado, que faz a ligação dos seus membros, desde o que é eminentemente divino – Cristo, Cabeça – com as demais partes deste Corpo Místico: os fiéis, simultaneamente vinculados entre si. Parafraseando Santo Irineu de Lião, dizemos que a ação litúrgica comemora e celebra esta auto comunicação de Deus, e da vida intratrinitária, para com seu povo por meio de Seu Filho, Jesus Cristo, no qual fomos adotados e somos divinizados, sob a potência do Espírito Santo.
             Santo Agostinho, tecendo sobre o poder dos Sacramentos, apoia-os na força da Palavra mesma de Deus, ou seja, Jesus Cristo, estabelecendo tal vigor principalmente em tudo o que o Verbo Encarnado revelou à humanidade. Pelas coisas visíveis, a pessoa que crê é conduzida às realidades invisíveis; mais claramente,através da palavra que lhes dá sentido, sendo-lhe, por assim dizer, o seu sinal decisivo, desde o “Eu te batizo...”, “Eu te absolvo...”, “Isto é o meu Corpo... e o meu Sangue...”, perpassando todas as fórmulas dos sacramentos, como acontece no Sacramento da Crisma, do Matrimônio, da Ordem e da Unção. Deste modo, o sacramento é como que uma palavra ‘visível’. A palavra sacramental é palavra de fé da Igreja, em última análise, é palavra de Cristo, por tê-Lo como princípio fundamental. Em poucas palavras, o Bispo de Hipona quer dizer que o sacramento é o sinal visível da graça invisível, que produz o que significa, com aquilo que é dito para que aconteça na vida do cristão.
            Jesus quis nos sacramentos, unir a sua graça a sinais exteriores, nas quais a ação invisível do Espírito Santo encarna e se materializa. Ele quis comunicar ao homem a graça sobrenatural através das mesmas realidades materiais que usamos diariamente, dando-lhes um significado mais alto e uma eficácia que, por si, não têm nem podem ter: água, pão e vinho, óleo, mãos, fraquezas, homem e mulher.O elemento material tem o nome de matéria do sacramento, e as palavras que o completam, dão à matéria a sua eficácia e denominam-se de forma ou fórmula. A matéria e a forma constituem a essência dos sacramentos e não podem ser modificadas, pois foram determinadas por instituição divina. A Igreja, ao estabelecer modificações nos ritos, nunca altera essa parte essencial.
 Os sacramentos, tendo sido instituídos por Cristo, contêm realmente o que significam, ao tempo em que operam sempre e verdadeiramente aquilo que se propõe de modo infalível em quem os recebe com as devidas disposições. Para a Graça Sacramental produzir os efeitos a que se propõe, tal como deve ser, se integrante a devida abertura do coração de quem a recebe. Aqui, reside a importância de, condizente com cada sacramento a ser recebido por nós e ministrado pela Igreja, sempre haver uma preparação interior e remota que nos digne a recepcioná-lo com máximo aproveitamento para o nosso espírito.
Com este meu esforço de condensar em tão limitadas linhas o que, naturalmente, é bastante profundo, órbita pela qual gira a vida da Igreja em torno de Seu Divino Fundador, tal como se constituem os Sacramentos, faço votos de que o Diretório, riqueza posta nas mãos dos nossos pastores e diocesanos, seja a cura da mente estudado e zelosamente observado em todas as nossas paróquias, comunidades, movimentos e pastorais, a fim de que possamos beber da fluência da vida de Cristo que jorra em cada sacramento para a vida de quem o recebe, ao mesmo tempo em que possamos colher daí a salvação para os filhos da Igreja, “a Senhora Católica”, a Esposa de Cristo.

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